Felipe Moreno

Data da entrevista: Maio/2016

LinkedIn: https://goo.gl/ieOM5m


 

Felipe Moreno - A. T. Kearney

Felipe Moreno é um um engenheiro eletricista formado pela Unicamp em 2011 e que se apaixonou pela A. T. Kearney desde seu estágio. Após quatro anos de trabalho e promoções bem rápidas, ele começou um MBA na University of Chicago Booth School of Business nos Estados Unidos para melhores oportunidades na carreira.

 

Formação: Engenheiro Eletricista (2007 - 2011)

Empresa: A. T. Kearney (2011 - Até o momento)

Cargo Atual: Em MBA (Último Cargo - Associate)

 

 

CCU: Conte um pouco da sua trajetória acadêmica, o que fez na graduação e como entrou na carreira de consultoria.

Felipe: Entrei na Unicamp em 2007 em Engenharia Elétrica. Na universidade eu me envolvi bastante com a atlética, fiz parte da comissão de formatura e também era muito envolvido com a República que eu morava. A primeira experiência de liderança foi justamente organizando as festas da república, tendo que organizar o horário e o público. A vivência de morar em grupo também foi bem importante. Quando você mora em república você tem algumas funções e as pessoas realmente dependem de você para isso.

No meu primeiro ano eu fui num evento do MTE e conheci algumas empresas de consultoria e percebi que era aquilo que eu queria fazer. No começo do terceiro ano eu fiz um processo seletivo e as únicas empresas que estavam com processo aberto para estagiários na época eram da A. T. Kearney e a Monitor Deloitte. Eu passei nas duas e preferi começar na A. T. Kearney como estagiário.

Na época eu adiantei o maior número possível de matérias para que no ano que eu estivesse trabalhando em São Paulo eu não tivesse que ficar viajando toda hora para Campinas. No fim das contas eu adiantei tantas matérias que acabei me formando em quatro anos e meio. Com dois meses de estágio eu acabei me apaixonando pela empresa, então pedi para eles adiantarem minha avaliação, porque só poderia fazer 6 meses de estágio e não 1 ano como é normalmente. Com menos de 3 meses eles me deram a oferta full time para eu voltar a trabalhar lá assim que eu me formasse.

 

CCU: Das atividades acadêmicas da Unicamp, quais você recomenda para os alunos?

Felipe: O intercâmbio é algo super legal. Eu tive oportunidade de ir para a Alemanha, mas acabei não aceitando porque eu preferi ficar e adiantar as matérias para justamente ficar um pouco mais livre na época de estágio. Mas para quem tem essa oportunidade eu acho que acaba tendo experiências bem interessantes e que chamam a atenção das empresas.

Eu também acho importante procurar qualquer atividade que tenha oportunidade de liderança para saber lidar com pessoas, porque é isso que a gente procura quando fazemos entrevista. Não precisa ser o presidente do centro acadêmico, mas pode ser um cargo na atlética ou mesmo organizando festa na sua república. Mas é importante você ter algum tipo dessa experiência, fazendo as pessoas trabalharem em conjunto.

Eu acho que as pessoas deveriam aproveitar bastante a oportunidade de socializar na Unicamp. Grande parte da sua educação na faculdade tem que acontecer fora da sala de aula. O fato de você ter um network na faculdade é importante para qualquer carreira e em consultoria principalmente, porque o network do trabalho de um consultor é essencial. Justamente um dos principais motivos para alguém vir para o MBA é o network que pode ser encontrado aqui, mas quando somos mais novos não sabemos o quanto isso é importante.

 

CCU: Você está fazendo MBA na University of Chicago Booth School of Business nos Estados Unidos. Como é esta experiência e o que você espera que isto acrescente na sua carreira?

Felipe: Cada consultoria tem uma conduta em relação ao MBA. Algumas te obrigam a fazer para que você possa avançar na carreira. No caso da A. T. Kearney não é assim, e eu acho isso certo. Cada pessoa tem suas necessidades e às vezes a pessoa é casada e tem filhos e o MBA viria como um empecilho. Então a empresa hoje em dia pensa que não faz sentido você bloquear ou perder pessoas porque elas têm mentalidades e planos diferentes. Portanto existem caminhos de carreira para quem quer e quem não quer fazer MBA.

Cada cargo que temos na consultoria temos um tempo mínimo e um tempo máximo que podemos permanecer nele. Por exemplo, no caso de analista você tem no mínimo 1 ano e no máximo 3 anos. Eu sempre fui promovido no tempo mínimo, uma carreira que chamamos de fast track. Quando fui promovido para o cargo de associate, percebi que já estava no cargo que era pós MBA, então fazer essa pausa para estudar significava eu atrasar minha carreira, pois eu iria sair e quando eu voltasse eu estaria quase no mesmo cargo. Mesmo assim eu pensei em algumas coisas que valiam a pena vir para o MBA. A primeira é que eu sou formado em engenharia, isso é ótimo porque somos ensinados a nos virar para aprender, mas eu queria ter uma formação formal de marketing. A segunda coisa é que o MBA talvez não me ajude tanto a virar gerente, mas meu objetivo não é virar gerente, meu objetivo é mais para cima, é virar sócio. E para isso eu acho que o MBA ajuda muito. Isso se deve ao network que eu já falei e também por todo o treinamento de negócios e liderança. Então talvez eu fique atrasado um pouco para ganhar o cargo de gerência, mas para os cargos mais para frente talvez eu esteja mais capacitado.

Além disso, o trabalho em consultoria é bem difícil, demanda muito de você, então são dois anos mais tranquilos, levando a vida de estudante. Para quem está no final do curso provavelmente não aguenta mais a faculdade, mas depois de quatro anos trabalhando em consultoria você gostaria de voltar a só estudar. Claro que o MBA não é fácil, tem matérias bem complicadas, mas para quem fez engenharia o MBA não assusta. Você tem um crescimento pessoal e profissional sem ter toda a pressão de empresa, de entregar resultado.

 

CCU: Conte um pouco da empresa em que trabalha. Como foi a evolução da sua carreira dentro da A. T. Kearney? Quais as responsabilidades de cada cargo?

Felipe: A A. T. Kearney tem uma cultura muito forte. Então desde os estagiários até os sócios que eu trabalhei, eu me identifiquei com todos. O ambiente aqui é muito colaborativo, existe amizade entre os consultores. A gente pode atribuir isso porque a A. T. Kearney é uma empresa menor que as grandes consultorias. Nós temos apenas 70 consultores no Brasil e eu acho isso ótimo! Isso permite uma exposição interna e externa muito grande. Por exemplo, no meu primeiro projeto como estagiário o cliente já sabia quem eu era, eu já participava das reuniões, o sócio já sabia o meu nome e o meu trabalho. A A. T. Kearney tem cinco sócios e todos eles já me conhecem, já conhecem o meu trabalho e sabem das minhas capacidades.

Depois do estágio eu voltei como analista. Quando você já fez estágio as pessoas já sabem os projetos que você fez. A empresa menor consegue te dar um nível de autonomia muito maior, então depois de alguns projetos que as pessoas já conheciam as minhas capacidades eu já conseguia pegar alguns trabalhos de analista sênior. Se você está numa empresa maior as coisas são muito mais certinhas, quadradas. Cada funcionário tem a sua função específica, então o estagiário só faz pesquisa e modelo, tem consultorias que o estagiário nem vai para o cliente. Na A. T. Kearney não. Eu como analista já tinha estagiário trabalhando para mim e colocava eles para apresentar para os clientes porque eu sentia segurança. Você acaba tendo uma autonomia e uma capacidade de exposição muito maior se você está em uma empresa menor.

Passei quinze meses e fiz quatro projetos como analista, que era o tempo mínimo na época. Fui promovido então para analista sênior e fiquei mais um ano até ser promovido para ao cargo de associate. Já como analista eu já tomava alguns papéis de associate, principalmente nos últimos meses.

Passei todos os cargos da carreira e fiz projeto em todas as indústrias que você imaginar, exceto indústria de energia elétrica, e eu como engenheiro eletricista. Aqui no MBA as minhas experiências são super relevantes para as aulas que eu tomo. Se você trabalhar 2 ou 3 anos em consultoria, você consegue sair para qualquer lugar, você vira um “coringa”, um cara que trabalhou em várias indústrias e várias funções e você só começa a se especializar mais tarde na carreira.

 

CCU:Conte um pouco como é o ambiente de trabalho na A. T. Kearney em relação a pressão, satisfação e entrosamento dos colaboradores.

Felipe: A pressão existe sempre, em qualquer trabalho, e no nosso é um pouco maior. E tem que ser. O nosso trabalho funciona da seguinte forma: a empresa tem um problema, liga para a gente, nós cobramos bastante dinheiro e entregamos resultados de impacto. Como o cliente está pagando por semana, ele quer colocar o máximo de coisa no menor tempo possível. Aí vai dos sócios trabalharem para que as coisas que a gente tenha que fazer sejam razoáveis. Então pressão varia muito nesse sentido, porque varia muito do projeto. Eu já tive projetos sem pressão nenhuma, o cliente ajudava bastante e o tempo funcionava muito bem. No outro extremo, todo mundo tem projetos com muito mais pressão. Às vezes aquele é um projeto muito importante para a empresa vender novos projetos e o sócio fica em cima. Depende muito de projeto para projeto.

Via de regra nossa pressão é maior que a da indústria, mas é uma coisa que você tem que gostar, por isso eu acho que a carreira de consultoria não é para todo mundo. Eu, por exemplo, adoro, acho que a Unicamp me ajudou a pegar esse gosto por trabalhar sob pressão. Claro que às vezes tem projetos que a pressão passa de ser saudável, aquilo que te motiva, e passa a ser muito pesada e que faz o time não entregar direito. Mas isso depende muito do projeto, do cliente e do seu time.

Quanto à satisfação, a consultoria é um trabalho que você não consegue ficar muito tempo se você não estiver satisfeito. É um trabalho super demandante e sob pressão, você precisa estar muito motivado para fazer bem. Você precisa ter todo mundo satisfeito nas equipes para entregar projetos bons. O único ativo das empresas de consultoria são os consultores, então a empresa faz de tudo para garantir a satisfação e motivação dos funcionários.

Na questão de colaboração, toda consultoria tem que ser colaborativa. Eu aqui no MBA eles sempre me ligam para perguntar alguma coisa e eu ajudo. Esse tipo de coisa você vê acontecendo o tempo inteiro. Quando eu era estagiário no meu segundo dia de empresa já veio um consultor perguntar como eu estava e me deu aula de Excel, me passou treinamento e disse que estava disponível para qualquer dúvida. Hoje em dia é um dos meus melhores amigos. E como fizeram isso com você, você quer fazer também para ajudar, passar isso para frente. Eu já ajudei o pessoal da Índia a implementar uma ferramenta que eu fiz no Brasil.

 

CCU: Você tem alguma dica para o processo seletivo da A. T. Kearney?

Felipe: O principal é estudar case. É uma coisa que tem que ser feita e eu acho que é o calcanhar de Aquiles da Unicamp. Desde o ano que eu apliquei e as pessoas que eu venho entrevistando, este é o ponto fraco. Nisso eu acho que o trabalho de vocês [CCU] é muito importante, porque case não é algo muito complicado, não é o fim do mundo, mas é algo que precisa ser estudado. É preciso sentar e treinar, precisa entender como que funciona. Eu já entrevistei muita gente que nunca tinha feito case na vida e não sabia a dinâmica, então ficava muito perdido. Mas também não precisa ficar estudando case sem parar , você tem que ler algumas coisas, praticar algumas vezes e entender algumas sacadas. Não precisa encarar como se fosse uma matéria da faculdade, mas precisa estar minimamente preparado.

A primeira etapa do nosso processo é a etapa do GMAT, que não deveria ser problema nenhuma para as pessoas da Unicamp, mas, assim como o case, é uma prova que você precisa conhecer o formato, porque não é difícil, mas é uma prova rápida. Então se fosse 3 horas para fazer todas as questões todo mundo iria tirar 10. Precisa conhecer um pouco as questões para fazer elas rapidamente.

Depois vem uma etapa de dinâmica. Não tem dinâmica típica de RH, o que fazemos é um case em grupo. Colocamos os alunos em grupo, apresentamos o case e eles têm um tempo para ler, preparar as respostas e apresentar para a gente no final. Neste caso além das habilidades que você precisa ter para fazer o case, avaliamos o trabalho em grupo. Como que a pessoa está trabalhando com os pares, se ela está super reativa ou se não está, se os outros candidatos estão brilhando mais que ela e ela está ficando apagada... A pessoa tem que saber trabalhar em grupo, contribuir, ouvir as outras pessoas, não se esconder, dar as suas ideias e saber se as ideias são boas.

 

CCU: Existe um equilíbrio saudável entre a sua vida profissional e pessoal? Há muitas viagens?

Felipe: Você tem uma responsabilidade e precisa entregar no período do projeto. Quer dizer que ninguém está contando as horas que você trabalha. Então depende muito do projeto que você está. Eu já fiz projeto que eu trabalhei quatro horas por dia e ninguém está ali verificando se eu apareci. Quando você tem que trabalhar no cliente você tem que ter os horários mais certinhos, mas se a gente está trabalhando no escritório não tem um horário definido. Assim como eu já tive trabalhos mais tranquilos, de menos de oito horas por dia, eu já tive projetos que tive que trabalhar dezesseis horas por dia.

O equilíbrio é muito da pessoa, porque você tem que colocar os seus limites. Quando as pessoas começam a trabalhar em consultoria é um pouco mais difícil, porque sendo um estagiário ou um analista vão te falar muito o que fazer e como, à medida que você for progredindo só vão te falar o que fazer, mas como fazer é problema seu, você pode criar sua própria agenda. Quando você entra em consultoria e te pedem para fazer uma coisa, você não tem a mínimo ideia de quanto tempo aquilo vai demorar. A medida que você vai crescendo na carreira você consegue ter uma noção maior dos tempos e consegue se planejar melhor e então começa a ter mais equilíbrio do trabalho com a vida pessoal. Nisso também tem muito de você saber colocar limites. Você tem que saber colocar limites e saber quando que você vai trabalhar e quando você vai ter sua vida pessoal. Consultoria é um trabalho de picos e vales, você tem que saber aproveitar os vales porque quando chegar os picos a coisa fica muito pesada. Isso você vai aprendendo durante a carreira.

Quanto às viagens, eu tive sorte porque eu viajei pouco. Isso é engraçado, porque quando estamos recrutando as pessoas acham que viagem é o legal da carreira, mas depois que você entra você vai ver que viagem não é tão bom assim. É legal, mas cansa. Fiz projetos na Argentina, na Costa Rica e na Guatemala, mas eu não precisava estar no cliente, então eu ficava pouco. Ficava no máximo duas semanas em cada país. Essas viagens são ótimas porque você não tem que ficar no lugar. E antes de sair para o MBA eu fiz quatro meses de projeto no Uruguai. Se você pegar muitos projetos seguidos viajando você pode pedir para o RH para parar de viajar por um tempo. O RH tenta balancear isso também, de quem tem família e não quer passar muito tempo viajando deixar a pessoa menos tempo fora. Já tem pessoas que são solteiras e que preferem ficar viajando o tempo todo. Isso é muito pessoal. Mas no Brasil como tudo fica muito concentrado em São Paulo, você até que viaja pouco comparado ao resto do mundo.

 

CCU: Você tem algo que queira acrescentar?

Felipe: Eu gosto muito da A. T. Kearney, sou um apaixonado pela empresa e gosto muito das pessoas com quem eu trabalho. Pelo fato da empresa ser menor, as pessoas ou não conhecem ou tem essa ideia de que a McKinsey, Bain e BCG são melhores porque são maiores. Mas eu acho que as oportunidades e compensação financeira vão ser as mesmas. Além disso, você também tem o fato de que sendo um escritório menor, você consegue fazer a diferença. Talvez as pessoas não vejam no começo, mas acho que está mudando isso. A flexibilidade de mudar de posições e tomar ações são muito maiores.


 Entrevista: Redação CCU