Quando a McKinsey conheceu o Uber: A gig economy chega à consultoria

Muitos consultores de negócios se instalando independentemente aproveitam da flexibilidade e da criatividade extra.


Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal britânico Financial Times.

 

 

Antigos consultores de grandes firmas largam o universo de pressão e cobrança das firmas para se tornarem consultores freelancers. Segundo reportagem feita no Reino Unido, antigos consultores conseguem sobreviver com a mesma renda que tinham em suas firmas como freelancers, tendo, no entanto, um horário mais flexível e com menos cobrança para fazer um projeto. A reportagem a seguir mostra um pouco mais de perto o dia-a-dia e as trajetórias destes consultores.

Seu perfil no LinkedIn o chama de “social entrepreneur”. Mas Jonathan Petrides, 32 , é tão provável de ser encontrado experimentando receitas para a sua mais recente start-up AllPlants, que produz refeições congeladas de vegetais, como pensando em ideias para as ventures no ramo da saúde na Kenya. Se perguntarem “O que você faz?”, ele normalmente responde que é um consultor.

 

Petrides não está sozinho. Acima da camada de “gig economy”(um setor da economia formado por pessoas sem emprego fixo, que não tem chefe e nem metas a cumprir para serem promovidos, formada fortemente pelos motoristas do Uber, por exemplo), está um mais bem pago e crescente setor de “gig consultants”. Esses freelancers conselheiros corporativos, muitas vezes alumni de grandes empresas de consultoria, diferem dos outros no mercado gig. Eles são menos dependentes do trabalho dado via internet.

 

Eles constantemente competem por projetos em times coordenado por intermediários, às vezes competindo contra seus ex-empregadores por contratos. Mas sofrem da mesma insegurança, solidão e a renda volátil de outros freelancers – e nem todos aguentam a pressão.

 

Definir o ramo de consultoria independente é difícil; determinar seu tamanho ainda mais. “Consultor” é uma palavra cada vez mais usada por qualquer freelancer para validar sua empregabilidade. Mas uma pesquisa de 251 atuais e 108 antigos consultores no Reino Unido  sugere as atrações e os perigos da carreira, e indica crescimento no futuro próximo.

Oito entre 10 atuais ou ex-consultores freelancers acreditam que consultoria independente irá crescer no futuro. Até mesmo  dentre um grupo menor de consultores que nunca prestaram consultoria independente, 75% acreditam que esse ramo irá crescer futuramente.

 

Um prognóstico feito em 2013 por Clayton Christensen, professor da Harvard Business School, e seus colegas. Eles previram o enfraquecimento de consultorias muito bem estabelecidas no mercado no passo que clientes, num primeiro momento pequenos, depois maiores, começam a usar alternativas aos grandes nomes da consultoria.

 

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Caso 1

Nome: Jonathan Petrides

Idade: 32

 

Ex-Mckinsey. Usa projetos de consultoria para ajudá-lo enquanto ele desenvolve empresas sociais e ventures como a AllPlants. Diz que consultoria independente é tanto flexível quanto seguro.

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Isso é uma presunção agressiva – bastante agressiva, como dizem algumas consultorias já estabelecidas – mas estatísticas oficiais do Reino Unido mostram que 55000 de 175000 consultores de gestão e analistas de negócios já são seus próprios chefes. Menos da metade das 29000 pessoas que entraram nessa categoria entre 2011 e 2016 eram seus próprios chefes. O número de aplicações para participar deste network de consultores independentes feitos pela Eden McCallum, o grupo do Reino Unido que realizou essa pesquisa, dobraram nos últimos 5 anos para 1058. Eden McCallum é uma dentre várias instituições que disponibilizam framework para freelancers, os habilita e os ensina a realizar atribuições da equipe.

 

Em parte, esse crescimento reflete o constante fluxo de pessoas que se tornam consultores depois que perdem ou saem dos seus trabalhos. Aproximadamente um quinto dos funcionários de grandes empresas de consultoria saem todo ano, de acordo com o Professor Christensen. Na próxima década, esse cenário irá provavelmente crescer com antigos homens de negócios que querem ter mais tempo para trabalhar, e com jovens sonhando em fazer vários trabalhos como parte de uma carreira dinâmica.

 

 

“O crescimento será significante simplesmente por ser a alternativa perfeita: se você foi demitido, é fácil começar por conta própria,” disse Elco Van Grotenhuis. O holandês se tornou um consultor em 2007, aos 45, quando prometeu a sua esposa que não mudaria de país por conta da empresa que era chefe executivo.

 

Consultoria independente também aparece como uma opção mais atraente para jovens com menos experiência. De acordo com a pesquisa, pessoas com menos de 40 passam mais tempo trabalhando em consultoria do que os mais velhos, e têm significativamente menos certeza sobre quanto tempo vão continuar exercendo esse papel. Eles são muito mais prováveis de quererem começar seu próprio negócio. Eles foram a única faixa etária que citou a necessidade de fundar uma startup como uma das principais razões deles quererem entrar no mundo de gig consultoria.

 

Petrides foi contratado pela McKinsey como “analista de negócios”, um nível de entrada para recém-formados. Depois de dois anos, a firma dá à equipe deste grupo a opção de se destacarem foram da McKinsey, com a possibilidade de retomar como consultor de tempo integral mais tarde.

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Caso 2

Nome: Homy Dayani-Fard

Idade: 50

Entrou no ramo de consultoria independente depois de sair da Booz & Co em 2010 e gostou bastante, mas aceitou um trabalho no EY quatro anos depois, muito porque queria ter mais certeza quanto a sua renda. Ainda realiza consultoria independente, no entanto, e pode retornar a consultoria independente por tempo integral.

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“Eu sentei e pensei: qual é o negócio mais arriscado que eu posso fazer, tendo em vista que eu não tenho mais nada a perder” disse Petrides

 

Freelance consultoria agora o fornece um “arsenal de criatividade e renda que é flexível e segura. Eu simplesmente não preciso voltar a trabalhar por tempo integral: eu posso alternar entre realizar um projeto e ficar um período desligado de novo”.

 

É uma atitude dividida por outros jovens confiantes consultores independentes, de acordo com outros estudos  que sugerem um aumento na vontade dentre jovens gerações em trabalhar de companhia e companhia e tentar diferentes tipos de carreira. Eles são suscetíveis a alternar entre trabalho de tempo integral e oportunidades empreendedoras, tanto por escolha quanto por necessidade. Para aqueles treinados por grandes empresas, gig consultoria aparece como uma opção bastante atraente.

 

Sohini Pramanick, 40, deixou a McKinsey em 2010 para trabalhar pela Richemont, uma companhia de bens de luxo. Três anos depois, agora mãe, ela passou a transitar entre consultoria independente para ter mais controle quanto ao agendamento do projeto. Na verdade, ela diz que trabalhar independente não é mais flexível do que qualquer outro emprego em uma corporação quando você está no meio de um projeto. Por outro lado, a animação em ganhar um contrato grande sozinho é incomparável.

“Eu tive minha adrenalina a mil: eu não acho que eu já tinha me sentido tão animada por um projeto antes,” ela fala sobre conseguir um cliente prestigiado. “Poder mostrar que sou capaz foi um ponto muito importante”.

 

Apenas 5 por cento dos consultores independentes dizem que eles estão insatisfeitos com seu papel e, em quases todos os critérios, consultores independentes avaliam si mesmos como mais satisfeitos do que o grupo que nunca trabalhou como freelancer.

 

Mas esse trabalho não é pra todo mundo. Três quartos dos consultores entrevistados afirmam que estão ganhando a mesma quantia de dinheiro, ou mais, do que antes deles saírem de suas firmas, com uma renda anual de aproximadamente £120,000. Diretores na McKinsey conseguem ganhar mais de $1M por ano. Diferentemente dos funcionários de grandes empresas consultorias, oito de 10 consultores independentes disseram na pesquisa que eles trabalham de fato menos de nove meses por ano.

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Caso 3

Nome: Frances Mann

Idade: 56

Saiu da Capgemini em 2002. Em 2007-08, ela passou por uma temporada ruim e pensou “foi bom por um tempo, [mas] talvez seja o fim disso [consultoria], ou estou muito velha, ou a torneira secou – e então o telefone tocou e outro projeto veio junto”.

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Como os trabalhos na economia gig costumam ser mais mal pagos, a maior atração de consultoria independente é a flexibilidade. Mas isso é recompensado por uma das suas principais desvantagens: volatilidade. Segurança financeira, aliada com uma renda previsível, é uma das várias áreas em que consultoria independente  satisfaz com seu papel na frente de consultores de tempo integral.

 

Homy Dayani-Fard, 50, diz que ele consegue manter caixa suficiente para cobrir seis meses de renda previsível quando ele trabalhava independentemente após sair da Booz & Co, agora pertencente à PwC’s Strategy&, em 2010. Ele sabia que o rumo de consultoria independente seria mais lucrativo. Em quatro anos, no entanto, EY o trouxe de volta para o papel de funcionário.

 

“Quando você está trabalhando independentemente você convive com a incerteza da sua receita. Você ganha bastante dinheiro, mas às vezes você sente não estar fazendo nada por um tempo. Eu tinha acabado de me casar e eu queria perder um pouco dessa incerteza,” ele disse. EY já o deu a opção de retornar a consultoria independente, que ele talvez aceite, e isso o permite conseguir um papel de coach executivo por fora. Mas quando ele era um independente, credores eram céticos sobre a sua receita pífia, apesar do seu caixa de segurança. Seu status de freelancer também complicou suas tentativas de patrocinar a entrada da sua esposa turca no Reino Unido.

 

Usando os resultados da pesquisa, Eden McCallum pontuou sete perfis de consultores independentes, incluindo “jovens estrelas”, “especializados em empresas de família”, “clássicos experientes” (como ex-parceiros que trocam suas experiências), “os que evitam grandes desafios” (que realizam alguns projetos durante sua aposentadoria) e “especialistas”. A maioria desses grupos estão felizes. Mas dois grupos não estão tão contentes: “ponteiros”, que querem mais retornar a exercer papéis em corporações, e, pior ainda, “batalhadores”, que sentem falta da comunidade corporativa, e ganham o mesmo ou menos dinheiro que quando faziam parte dela.

 

Conselheiros independentes dizem que resiliência é uma qualidade essencial para aqueles que querem se distanciar de chefes. “Eu conheço algumas pessoas que não conseguiram suportar muito bem o pensamento de não saber o que será que irá acontecer e voltavam pra outra coisa,” disse Pramanick.

 

Frances Mann, 56, outra consultora de sucesso, virou independente em 2002, tendo trabalhado pela Capgemini. Mann diz que ela se impressiona pelo calibre dos consultores independentes com quem ela trabalha hoje em dia. Mas se referindo a alguns daqueles que se consideram como consultores, ela diz: “O nível de energia, habilidades, nível de introspecção variam massivamente”.

 

Consultores mais jovens podem logo encarar um problema diferente: como ganhar experiência suficiente para se manter na carreira de freelancer.

 

David Newkirk, 64, pode ver o setor pelo outro fim do telescópio. Tendo trabalhado na Booz Allen Hamilton (antes da Booz & Co cindir), ele primeiro se mudou para Darden School da Universidade de Virginia para fazer seu programa de educação para executivos. Ele é um consultor independente desde 2012.

 

“Meu objetivo é trabalhar uma média de um dia por semana, pra manter meu cérebro funcionando,” ele disse. “Você precisa se manter situado.”

 

Ele se preocupa que consultores menos experientes comecem a se demitir muito cedo, ele acredita que eles nunca vão entender o que é de fato consultoria.

 

“O modelo de aprendizado, oito anos para se tornar parceiro e “up or out”: eu não acho que consultores podem mais trabalhar nesse modelo… Se não há pessoas talentosas que as grandes firmas investiram, como você vai atender essa demanda [de independentes]?”

 

Companhias como Eden McCallum e Business Talent Group, uma companhia baseada nos Estados Unidos que opera com modelo semelhante, oferecem suporte para independentes. Outra centrada no Reino Unido, Talmix, que já mudou de nome de MBA & Co para mostrar que ela tem mais que apenas uma business school alumni, mas opera em um nível mais amplo como plataforma da web para profissionais, onde clientes podem projetos para times ou individuais.

 

Mas essas agências disponibilizam apenas uma parte da resposta de como gig consultores podem superar a incerteza de ser freelancer. Algumas plataformas da internet mais frágeis até introduzem outro nível de incerteza - semelhante a sofrida por outros que trabalham no ramo de gig - oscilando trabalhos antes de possíveis candidatos, em seguida, atraindo seu espaço para um possível cliente com o seu currículo para assegurar um trabalho.

 

As maiores firmas geralmente se mantém céticas que times de “mercenários”, como um parceiro de uma grande consultoria os chama, um dia se tornará poderoso suficiente para vencer a grande reorganização de projetos que são estabelecidas em grupos pão com manteiga. “Se for importante o suficiente para os clientes, eles vão com alguma das grandes marcas,” disse um parceiro de estratégia de outra firma profissional.

 

Algumas grandes consultorias notaram que elas também precisam formar um network mais forte de ex-funcionários com que a rotina das corporações talvez não seja flexível o suficiente, ou o uso de freelancers especialistas em áreas onde conhecimento do ramo seja escasso, como a tecnologia de informação.

 

Ainda, a vida de um freelancer - tanto um bem pago antigo parceiro ou chefe executivo, quanto motorista pago on-demand - tende a continuar precária. Charles Handy, um veterano de gestão, examinou a primeira onda de trabalhos independentes 15 anos atrás em seu livro The Elephant and the Flea. Avanços tecnológicos têm desde então permitido mais freelancers a crescer.

 

Ainda que Van Grotenhuis, o antigo chefe executivo citado acima, pontue, algumas pessoas “glorificam o fato de ser ‘liberdade’”. Então que conselho ele poderia oferecer para aqueles preparando para entrar em consultoria independente? “Não superestime os benefícios de tempo livre e flexibilidade,” ele disse. “Quando você está tranquilo, você encara a pressão de achar o próximo desafio.” 


Fonte: Financial Times