Crise faz executivos buscarem cursos para melhorar qualificação

Especialistas dizem como se preparar para tempos mais hostis e se tornar indispensável para as empresas.


Este artigo foi originalmente publicado no portal Valor Econômico.

Antonio Batista, da Fundação Dom Cabra (Fonte: Valor Econômico)

O segmento de educação executiva é "contra-cíclico", e caminha no sentido oposto ao das crises. Desse modo, quando a economia vai mal, cresce a demanda por cursos de especialização. A afirmação é de Luca Borroni, diretor dos programas do Insper, e já pode ser comprovada.
Segundo ele, esse movimento ocorre por razões diversas. Quem está empregado, por exemplo, se preocupa em agregar ainda mais valor para a companhia em que trabalha para minimizar o risco de ser demitido. Por outro lado, quem foi demitido busca desenvolver competências, aumentar sua rede de relacionamentos e sua visibilidade no mercado. "As pessoas querem melhorar o currículo", afirma Borroni.

No começo de 2015, grande parte das escolas de negócio brasileiras detectaram aumento na procura por seus programas. No Insper, houve 20% mais alunos no curso de férias de janeiro em relação ao mesmo período de 2014, na estimativa de seu diretor.

Na Fundação Getulio Vargas (FGV), as matrículas nos cursos abertos de curta duração, cujas aulas começam em março e abril, aumentaram cerca de 30% na comparação com os mesmos tipos de programa no início de 2014, segundo Paulo Mattos de Lemos, diretor do Instituto de Desenvolvimento Educacional para Rio, São Paulo e Brasília da FGV. Esses cursos geralmente têm 24, 60 ou 120 horas, sendo que os de 24 podem ser condensados em apenas três dias em período integral, os de 60 são ministrados uma vez por semana durante quatro meses e os de 120 são distribuídos em dois dias da semana também por quatro meses. Para os programas de longa duração, os MBAs, a procura se manteve estável, na percepção de Lemos.

Entre os cursos abertos, os temas mais requisitados, de acordo com o diretor da FGV, são liderança - que conta com a participação do empresário Abilio Diniz -, negociação e finanças. Tem crescido também a demanda por cursos ligados a habilidades comportamentais - as chamadas 'soft skills'. "Há funcionários muito bons em sua área de especialização, mas que não conseguem trabalhar em grupo ou liderar pessoas."

Na opinião da consultora de recursos humanos Rúbria Coutinho, os programas de curta duração são indicados para melhorar pontos fracos, que devem ser avaliados segundo o cenário. "O profissional precisa identificar o que está faltando em seu perfil e que possa fazer a diferença em tempos de crise para o negócio da empresa. Conhecimentos em compliance e riscos são exemplos."

De acordo com Antonio Batista, diretor-executivo de mercado da área de programas customizados da Fundação Dom Cabral, em momentos de crise os executivos buscam desenvolver novos olhares e competências para a questão gerencial. "Nessas condições, o profissional precisa ter um algo a mais para conseguir lidar com mudanças de cultura, enxugamento ou mesmo abertura de novos negócios. Ele deve ser capaz de pensar estrategicamente e liderar pessoas", afirma.

As próprias companhias continuam mandando os funcionários para a escola, pois, segundo Batista, em um momento de retração os períodos de ociosidade aumentam - o que favorece a dedicação às aulas. "Quando a economia está bem há menos tempo disponível para que estudem", enfatiza.

Sob o ponto de vista do profissional, a recomendação de William Bull, sócio e consultor do Instituto Pieron, é estar atento às necessidades da empresa nas fases difíceis. "Um curso de atualização pode desenvolver novas habilidades e demonstrar para a companhia que ele está disposto a se abrir para outras áreas e oportunidades", diz.

O ideal, porém, é atuar de forma preventiva e não esperar o ápice dos problemas para tomar providências. "O executivo deve se atualizar permanentemente tanto em termos técnicos como gerenciais, e não ficar suscetível às oscilações do mercado", ressalta. Para Bull, isso pode ser feito até mesmo por meio de cursos gratuitos a distância, oferecidos por muitas universidades.

Entre as novas turmas de pós-graduação e de MBA da Business School São Paulo (BSP), o diretor de desenvolvimento de negócios da escola, Ricardo Fasti, aponta um salto de cinco anos na idade média dos alunos. Além disso, ele calcula um crescimento de 10% no número de inscrições, em relação ao ano passado. Os alunos, em geral, são profissionais mais experientes, que já fizeram MBA em tempos anteriores e agora têm como foco uma requalificação. "Eles buscam cursos cuja certificação tenha valor para o currículo", afirma.

Outra tendência verificada por Fasti é o aumento da quantidade de executivos que pagam os estudos do próprio bolso, além da procura por um programa cujas aulas são às sextas à noite e aos sábados em tempo integral - um indicativo de que há mais executivos que vêm de fora de São Paulo para estudar.


Fonte: Valor Econômico.

https://goo.gl/gmGhjw