Programas de MBA reforçam habilidades comportamentais

Para Garth Saloner, reitor da Stanford Graduate School of Business,da Califórnia,curso precisa ter efeito transformador.


Este artigo foi originalmente publicado no portal Valor Econômico.

 

Fonte: Exame.com.br

O médico de uma clínica de Nova York é acusado de alterar pedidos de seguro-saúde para dar acesso a tratamento de fertilidade às mulheres que não têm como para pagar por ele. Vinte mulheres que se beneficiaram do esquema estão no tribunal com seus filhos em defesa ao médico. Ele deveria ser preso por fraude?

Esse é um caso que os estudantes de MBA da escola de negócios suíça IMD debateram em classe: um grupo acusando o médico, outro defendendo-o e um terceiro grupo dando o veredito do julgamento. "Há uma diferença entre a nossa reação intuitiva e a maneira pela qual racionalizamos a questão", diz o diretor Ralf Boscheck. "O objetivo não é ensinar ética às pessoas, mas fazê-las reconhecer seus próprios parâmetros morais."

Iniciativas de desenvolvimento pessoal desse tipo são apenas uma das inovações que estão sendo implementadas nos melhores cursos de MBA em período integral (full-time) - em um momento em que os alunos exigem que as escolas se distanciem das abordagens tradicionais na sala de aula. Análises de "big data", novos modelos de negócios, habilidades comportamentais e de empreendedorismo estão tomando o espaço de disciplinas clássicas como contabilidade, marketing e logística.

As poucas escolas de negócios de primeira linha gozam de sucesso cada vez maior - a Stanford Graduate School of Business, da Califórnia, por exemplo, admite apenas 6,5% dos candidatos. "Os alunos dizem que, se conseguirem ingressar em uma escola de primeira linha, vão cursar o MBA. Se não conseguirem, não vão", diz Garth Saloner, reitor de Stanford. "Para que as pessoas fiquem aqui por dois anos, abram mão de um salário e paguêm altas mensalidades, você tem que fornecer uma experiência verdadeiramente transformadora."

Para muitas das que estão fora do grupo de elite, porém, é a sobrevivência, e não as nuances do currículo, que ocupa o pensamento. Neste ano, várias escolas americanas de segunda linha fecharam seus programas de MBA em tempo integral - a Thunderbird School of Global Management, a Wake Forest University e a Pamplin School of Business da Virginia Tech são três delas. Outras parecem inclinadas a tomar o mesmo rumo.

"O segmento saudável do mercado é bem pequeno", diz Alison Davis-Blake, diretora da Ross, escola de negócios da Universidade de Michigan. Segundo ela, boa parte das escolas subsidia seus programas de MBA em tempo integral há vários anos, mas agora muitas têm programas tão pequenos que ultrapassaram os limites da viabilidade acadêmica e econômica.

As instituições de segunda linha estão migrando seus MBAs para formatos diferentes em meio-período e lançando programas de mestrado em administração. "A pergunta ainda sem resposta é: será que essas alternativas vão engolir o MBA?", questiona a diretora da Ross. "Nos EUA, não estamos atuando em grande escala há tempo suficiente para saber."

Além disso, a concorrência das escolas americanas se torna cada vez mais global. "Se a China continuar crescendo em seu ritmo e a Índia se tornar como a China, estaremos em um ponto de inflexão crucial", prevê. Mudanças da legislação há muito prometidas, que poderão ser implementadas no mercado indiano em 2015, poderão confundir tanto quanto esclarecer. Os tradicionais programas de pós-graduação oferecidos pelo Indian Institute of Management, por exemplo, poderão ser rebatizados de MBA. Na Índia, isso terá poucas consequências, diz Ajit Rangnekar, diretor da Indian School of Business (ISB), em Hiderabad. "No próprio país ninguém dá importância, só o que interessa é onde você estudou. As únicas pessoas afetadas seriam as que deixam o país", ressalta.

O que pouco tende a mudar, diz ele, é a legislação de reconhecimento do MBA de um ano oferecido pela ISB. A escola matricula quase 800 alunos ao ano em seu curso mais rápido. Embora seja reconhecido e recomendado na maior parte da Europa, o MBA de um ano enfrenta problemas em países como a Austrália, onde formados no exterior em cursos de menor duração não podem pedir vistos de trabalho como pós-graduados. No entanto, o formato de um ano é amplamente aceito no mercado, diz Laura Bell, diretora-associada de programas acadêmicos da Melbourne Business School, na Austrália.

Recrutadores estão cada vez mais dando sua chancela de aprovação, por exemplo, à Insead, que ministra o programa de MBA de um ano mais bem avaliado do mundo. Nos últimos seis meses, 30 desses profissionais visitaram um dos três campi da escola, segundo Urs Peyer, diretor de programas acadêmicos.

Enquanto os campi de França e Cingapura continuaram estáveis, a grande surpresa é o interesse por Abu Dhabi - 10% dos formados em MBA começaram seu primeiro emprego na região. "É incrível como as percepções mudaram", diz Peyer. "Todo mundo agora quer ir para Abu Dhabi." Ele cita o módulo do MBA que foi recentemente oferecido na região para atender 45 participantes, mas 175 se candidataram.

Tipos diferentes de emprego estão sendo oferecidos nestes tempos de pós-recessão, diz o professor Saloner, de Stanford. "Não houve muita mudança do lugar de origem dos alunos, mas no destino." Empresas de private equity, de capital de risco e fundos de hedge substituíram os bancos de investimento. Além disso, houve um aumento dos formandos de 2015 da ISB.

Em vista disso, será que a sobrevivência do MBA está garantida a longo prazo? Na opinião do professor Saloner, todos os grandes problemas do mundo relacionados a pobreza mundial e assistência médica, por exemplo, precisam de grande capacidade de liderança e de gestão. "Acho que o MBA não vai acabar." (Tradução de Rachel Warszawski)

(Della Bradshaw | Do Financial Times)


 

Fonte: Valor Econômico.

https://goo.gl/4AEV59